domingo, 20 de agosto de 2017

Educação sabotada


Educação sabotada


Professor Nazareno*


Sou professor de Redação e de Língua Portuguesa. Já completei 41 anos de sala de aula. Trabalho vendendo meus conhecimentos no setor público e também no privado. Desde o longínquo ano de 1976 que leciono e neste período vi que quase nada mudou na estrutura da educação no Brasil. Ainda temos hoje em pleno século XXI um dos piores sistemas de educação do mundo. Porém a nossa educação cumpre rigorosamente o seu papel: foi feita para não funcionar e realmente não funciona mesmo. Ditados pela elite conservadora e reacionária, os objetivos do nosso sistema educacional reproduzem fielmente a realidade social preconizada por Gilberto Freyre em seu livro Casa Grande e Senzala. A educação pública é péssima, horrível e não ensina nada a ninguém. Mas na rede particular não há muita diferença, já que são todas “farinha do mesmo saco”.
Desde sempre, a maioria dos meus alunos ao término do Ensino Médio, por exemplo, não sabe ler nem escrever. Muitos infelizmente nem sabem grafar o próprio nome. Têm dificuldades de entender um simples texto e tropeçam nas mais elementares sentenças matemáticas. Sem leitura de mundo e sem conhecimentos básicos não estão preparados para enfrentar a vida. E quase todos eles acham que são culpados por esta tragédia, por este caos. Mas não são. A deficiência do nosso sistema educacional foi plantada há tempos. A precariedade de nossas escolas é ideológica, proposital mesmo. Darcy Ribeiro teria dito que “uma nação que não constrói escolas deveria construir presídios”. E não se enganou. Vejam: desde o final do século dezenove que os Estados Unidos criaram o sistema integral de ensino em suas escolas. E o que são hoje os EUA?
Infelizmente a classe política é corresponsável por toda esta desgraça. Os nossos políticos são marionetes do sistema empresarial e elitista que sempre mandou no país e consequentemente em todas as nossas escolas. Sistema esse com uma mentalidade tacanha e retrógrada que aposta no atraso e na ignorância para continuar mandando em todos. Confúcio não é o governador de Rondônia. Hildon Chaves não é prefeito de Porto Velho. Michel Temer não é o presidente do Brasil. Todos eles são marionetes, são apenas gerentes de um sistema maior chamado “establishment”. Dar ao povo uma educação de qualidade para quê? Para tirá-lo da miséria? Para fazê-lo protagonista da sua própria História? Nossas escolas têm que ser ruins mesmo, fracas, podres. Mas há saída: escolas integrais e o compromisso de todos podiam ser a “salvação da lavoura”.
Muitos dos nossos professores infelizmente têm culpa também por este caos. Vários deles são eleitores do Bolsonaro e do Lula e defendem ardorosamente a militarização das escolas, pois sem competência para disciplinar seus alunos, creem que ordem unida, hierarquia, fardamento e repressão são pré-requisitos para uma educação de qualidade. Conheço muitos colegas semianalfabetos e despolitizados que defendem o absurdo sem compreender que a ideologização militar é parte de uma estratégia criada para impor ainda mais ideias atrasadas e retrógradas às nossas crianças. Nossos jovens não precisam prestar continência a ninguém, usar fardas, nem saber cantar hinos toscos para ter sucesso na vida. Precisam da boa leitura e de informações. Patriotismo é o pior dos sentimentos coletivos, pois leva ao Nazismo e ao Fascismo. E muitos educadores parecem hoje querer isso. Até quando teremos de nos submeter ao que nos é imposto?




*É Professor em Porto Velho.

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Terra de ninguém


Terra de ninguém


Professor Nazareno*

Há 37 anos que respiro o ar poluído desta terra amaldiçoada. E há exatos 37 verões que nesta época do ano o oxigênio fica quase irrespirável. E tristemente sempre foi e será assim. Estamos na estação da fumaça, que vem logo após a estação da poeira. Aqui, diferente de muitos outros lugares do mundo desenvolvido e civilizado, as coisas parecem girar ao contrário: lama, poeira, fumaça e mormaço é o oposto do que se conhece como verão, inverno, primavera e outono. A criminosa fumaça das queimadas arde em nossos organismos e nos expõe a doenças evitáveis como rinite alérgica, asma, bronquite, tosse, dentre muitas outras. Esta parte da Amazônia, como uma Hiroxima abandonada e maldita, exala todos os anos vergonhosamente para o mundo, a fumaça de suas ainda poucas matas. E tudo sob o olhar complacente e passivo das autoridades.
Rondônia tem INCRA, tem SIPAM, tem Sivam, tem IBAMA, tem secretarias de defesa do meio ambiente em quase todos os municípios, tem Ministérios Públicos, tem tudo relacionado à defesa do meio ambiente com uma estrutura de fazer inveja a qualquer país civilizado do Primeiro Mundo, mas via de regra todo ano, a vergonhosa situação fecha aeroportos, lota hospitais com crianças e velhos, causa transtornos e providências não são tomadas para acabar ou pelo menos para aliviar a hecatombe que se abate sobre nós. Em Rondônia é como se a sociedade civil organizada não fosse organizada ou nem existisse. Nada aqui dá certo. Nada funciona. Quase tudo é na gambiarra, no jeitinho. O fogo assassino e a fumaça tomam conta de tudo. As pessoas incendeiam seus quintais. Fazendeiros incineram suas terras e ninguém contém o caos.
Nesse Estado parece que “é cada um por si e o diabo por todos”. Até apagão essa desgraça de lugar tem, apesar de possuir três grandes hidrelétricas que só servem para beneficiar os outros. A classe política, que nada faz, é de fazer inveja ao Sudão do Sul, Burkina Fasso ou Eritreia. Em vez de se preocupar com os inúmeros problemas do Estado, legislam em causa própria e na Assembleia Legislativa do Estado aprovam para si próprios um absurdo auxílio alimentação de mais de seis mil reais por mês sem levar em conta as necessidades de seus burros e otários eleitores. Mas ainda bem que recuaram diante do óbvio. Aqui nesta terra de ninguém, político só trabalha seis meses e já sai de férias. Óbvio que viaja para o mundo desenvolvido e civilizado. Disney e Paris, por exemplo. Tirar férias e ficar por aqui só para nós mesmos, os pobres e ignorantes.
Como se não bastasse o horror, até a educação do Estado estão querendo militarizar como se usar fardamento, prestar continência aos “superiores” e saber cantar o Hino Nacional fossem pré-requisitos básicos para se adquirir leitura de mundo, conhecimentos teóricos e boas informações. Engraçado é que ninguém falou em educação de tempo integral para nossas crianças e jovens. Rondônia ou Roubônia caminha para trás há muito tempo. Em breve virará uma província sem eira nem beira e finalmente desaparecerá do mapa. Isso aqui é uma espécie de “filial ruim e atrasada do Brasil”, outra porcaria sem conserto e sem rumo. Um lugar onde Lula e Jair Bolsonaro lideram pesquisas eleitorais para presidente da República não se precisa dizer mais nada. O jeito é se conformar mesmo em inalar fumaça, aplaudir os apagões e esperar chover merda. E então neste sinistro dia, a alegria reinará entre os rotos e desdentados.




*É Professor em Porto Velho.

domingo, 13 de agosto de 2017

Vivemos na idiotice?


Vivemos na idiotice?


Professor Nazareno*


Se for feita esta pergunta à maioria dos cidadãos comuns do Brasil, a resposta majoritária será sempre negativa: “claro que não!”. Porém, sem se dar conta de sua própria estupidez, a esmagadora maioria dos brasileiros, em pleno século XXI, vive tempos muito anteriores à Idade Média. Na política, na economia, na Educação, na Saúde, na sociedade e em quase todos os setores da vida cotidiana o que norteia os brasileiros de um modo geral é a ignorância e a idiotice. Mesmo muitos dos nossos cidadãos tendo alguns anos de escolaridade e alguma visão de futuro ainda acreditam em coisas que no mundo desenvolvido e civilizado já foram extintas há muito tempo. O cidadão ignóbil infelizmente quase não tem noção de nada. Sem leitura de mundo, tolo, analfabeto, beócio e sem conhecimentos, vive como um verdadeiro imbecil e otário.
O brasileiro comum, como um perfeito idiota e desmiolado, acredita cegamente na Justiça do seu país. Crê também na maioria dos políticos que elege e sempre achou que o seu Governo é uma espécie de presente que Deus lhe deu. Deve ser por isso que não tenha nenhuma credibilidade lá fora e que sempre é “levado a pagode” como um dos povos mais estúpidos e imbecis do mundo. Não somos levados a sério por quase nenhuma nação civilizada e séria deste planeta. Na política, o nosso prestígio é pior do que o Sudão do Sul, o Haiti ou Serra Leoa, embora sejamos uma das dez maiores potências econômicas do mundo há mais de quarenta anos. Somos um eterno “anão diplomático”, como bem resumiu recentemente um diplomata de Israel. O nosso país infelizmente é motivo de piadas e chacotas em todas as nações desenvolvidas da terra.
Já em Rondônia, que é a “chacota da chacota” dos brasileiros mais imbecis, o festival de estupidez é hilário. Aqui, por ser uma terra de gente matuta e de cidadãos parvos em sua maioria, tudo é novidade. Recentemente uma caravana de comida ruim e insossa, chamada de “Food Truck”, encantou a todos apesar dos preços exorbitantes. Ver beiradeiros comendo gororoba a preço de ouro não tem diversão maior. Na área da política, por exemplo, a maioria dos cidadãos eleitores daqui venera um “político que não é político” e que na maior cara de pau tirou férias após somente seis meses de trabalho. O eleitor comum fica feliz só de vê-lo visitar o Primeiro Mundo em vez de alavancar o turismo inexistente da região. Em Porto Velho, nesta época de fumaça e poeira é comum observar incautos tirando fotos embaixo dos poucos ipês floridos.
O Zé Ninguém de Porto Velho é tão imbecil e idiota que não percebe as imundas e fedidas valas de esgoto a céu aberto ao lado dessas raras árvores floridas. Sensação olfativa estranha: é como você defecar embaixo de um pé de jasmim florido. Rondônia é um dos poucos Estados do Brasil em que Jair Bolsonaro tem a maioria das preferências de votos para as próximas eleições e Lula vem em segundo lugar. Isso só demonstra qual o nível desta unidade da Federação. A estupidez é tanta por aqui que se perguntar ao cidadão comum quem é hoje o pai do Brasil ele certamente dirá que é Michel Temer. Isso por que ele acredita cegamente em dia dos pais, dia das mães, dia do professor, dia disso e dia daquilo. Rondônia é tão ruim e amarga que para o resto dos brasileiros é um fim de mundo esquecido sem eira nem beira e que cuja capital é Boa Vista. Por acaso alguém conhece qual dos Estados do Brasil é governado por um blog?





*É Professor em Porto Velho.

domingo, 6 de agosto de 2017

O Beni é uma desgraça


O Beni é uma desgraça


Professor Nazareno*
           

Com pouco mais de três décadas de existência, a jovem província do Beni é uma das piores periferias do capitalismo mundial. Confundida com uma província homônima, também mais outra das terríveis periferias da nação, a bisonha e sinistra unidade da federação nasceu e foi praticamente colonizada pelo que de pior existe no resto do país. Com uma vasta extensão territorial, o Beni é maior do que muitos países civilizados e desenvolvidos do mundo como a Inglaterra e a Coreia do Sul, por exemplo. Tem uma população tão pequena que caberia numa cidade como Campinas no interior paulista, mas mesmo assim não consegue dar uma boa qualidade de vida ao seu povo. Situada estrategicamente entre dois biomas reconhecidos mundialmente como a Amazônia e o Cerrado, o pouco que se produz lá é à base da devastação ambiental.
Só na região de sua suja e imunda capital Trinidad, existem três grandes hidrelétricas que abastecem o Sul e o Sudeste do país com energia boa, abundante e barata enquanto na cidade se paga uma das tarifas mais altas. Na província, é difícil dizer o que é pior. Muitos dizem que são os políticos. De fato, dos poucos deputados federais que ainda existem, pelo menos cinco deles votaram para salvar o inexpressivo, impopular e golpista presidente do país. E devido a pouca ou nenhuma memória dos seus parvos eleitores, todos eles serão tranquilamente reeleitos a partir de 2018. Político em Trinidad trabalha só seis meses e já tira férias normalmente. Foi o que aconteceu com o atual prefeito, que viajou para Disney e Paris e deixou no seu lugar o vice, que está vergonhosamente enrolado até o pescoço em denúncias de corrupção e maracutaias.
 Mas como quase ninguém falou nada, a “carruagem” seguiu tranquilamente o seu curso. Parece até que os habitantes daquela cidade adoram ser governados por essa gente. Mas muito eleitor está espantado, pois na Câmara de Vereadores de Trinidad e na Assembleia Legislativa da província não acontece um escândalo de corrupção há mais de um ano. Será que os parlamentares estão doentes? Embora seja uma porcaria, uma desgraça, quase todos os habitantes de Trinidad dizem que amam a sua cidade. Vivendo confortavelmente em outros lugares pelo país, adoram escrever textos pífios defendendo o torrão de onde saíram há tempos. No Beni não existe turismo nenhum, óbvio, e talvez por isso as passagens aéreas são as mais caras do país. Ninguém é louco de querer ir para lá por que de lá quase não se pode sair.  O Beni é o inferno. Não é irônico isso?
No Beni não tem futebol nem estádio de respeito. Até numa vizinha província há times de futebol bem melhores e tem uma majestosa arena de jogos. A não ser que se acredite na lorota de que o “Oãziula” seja um estádio e que clubes da “série Z” sejam times de futebol. Piada pronta: sem nenhum clube de vôlei, handebol ou basquete,  Trinidad tem estranhamente um caro, suntuoso e desnecessário ginásio de esportes. Não há universidade estadual no Beni e o curso de Medicina da única instituição pública de nível superior de lá funciona há tempos sem um Hospital Universitário. Já a única unidade de pronto socorro da capital é um campo de extermínio de pobres. Hitler se orgulharia dela. As autoridades e os mais endinheirados fogem dali como o diabo foge da cruz. Estamos na estação da poeira e da fumaça com quase 40ºC à sombra e umidade abaixo dos 30%. Se o Beni não é uma desgraça, então só pode ser a morada do Satanás.





*É Professor em Porto Velho.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Quem aliena o povo?


Quem aliena o povo?

Professor Nazareno*

            Recentemente circulou pelas redes sociais uma pesquisa dando conta de que o Brasil tem o terceiro povo mais idiota do mundo. Claro que se trata de uma grande mentira. Primeiro por que é impossível se medir o grau de estupidez de uma população, segundo por que se isso fosse possível, provavelmente nós ficaríamos em primeiro lugar sem nenhum concorrente. Com mais de 206 milhões de habitantes, o Brasil se não tem o povo mais imbecil e palerma do mundo, certamente conta com uma grande parcela de cidadãos totalmente alienados, despolitizados, babacas e patetas. Não há país com povo mais estúpido. Isso sem levar em conta o fato de que grande parte desses mesmos cidadãos é desonesta e como perfeitos bocós abrem mão da participação política e sem reclamar colocam o seu destino nas mãos de políticos ladrões, corruptos e desonestos.
            O processo de imbecilização dos brasileiros já vem de muito tempo. A principal mola propulsora desse fenômeno atípico e sinistro está no péssimo sistema de educação do país, reconhecidamente como um dos piores do mundo. Aqui muitas pessoas mal sabem ler e escrever o próprio nome após o término do Ensino Médio, por exemplo. São analfabetos funcionais que fazem do jeitinho e da gambiarra uma filosofia de vida. Não sabem o que se passa de bom nos principais países do mundo e desconhecem as mais simples regras de civilidade e relacionamentos sociais. Para se comprovar esse anômalo comportamento social, basta ver os comentários que são postados nas redes sociais todos os dias. Além dos absurdos erros gramaticais, típicos dessa gente mal formada e informada, o festival de ataques aos mais elementares direitos à pessoa é uma constante.
            A mídia deve vir em segundo lugar nesse demoníaco processo de tornar apalermados os nossos cidadãos. Os programas da televisão, principalmente, são um convite à idiotização geral. Do BBB às novelas, o que se observa é uma apelação grotesca ao cidadão, desprovido de leitura de mundo e conhecimentos, para “participar” daquele festival de horrores. Os telejornais geralmente são tendenciosos e só mostram o lado idílico e mentiroso do país e de seus parvos habitantes. A verdade e a discussão não são incentivadas nem discutidas. O rádio também participa do caos. Músicas de péssima qualidade e programas que não valem a pena escutar são uma constante. Locutores e disc-jóqueis ou DJ’s mal intencionados, e também alienados, comandam programas cujo único objetivo é tornar mais idiotas ainda os coitados dos ouvintes. 
            A Igreja, o futebol, o carnaval e outras festas populares como o São João e as cavalgadas participam também muito ativamente do processo. A crença num ser imaginário e superior encanta a todos, principalmente os mais pobres, como num passe de mágica. A promessa de enriquecimento ainda em vida é uma isca infalível em que muitos creem. Já o futebol é uma paixão nacional. Pessoas até inteligentes e sociáveis deixam seus afazeres só para discutir as preferências de seu time preferido. E o que dizer de uma cidade suja, fedorenta, podre e imunda como Porto Velho que coloca em fevereiro quase 30 por cento de sua população no meio das ruas só para beber cachaça e muitos deles até a se drogar publicamente? O Congresso Nacional e os políticos de um modo geral representam muito bem este povo tantã e demente. Será que existe alguma dúvida por que um presidente maculado pelo roubo e pela corrupção ainda nos governa?




*É Professor em Porto Velho.

quarta-feira, 2 de agosto de 2017

Temer jamais cairia


Temer jamais cairia

Professor Nazareno*

            Michel Temer continua tranquilamente como presidente do Brasil. E quem determinou isso foi o Congresso Nacional por meio de uma democrática votação que não permitiu que as comprovadas denúncias de corrupção contra o maior mandatário da nação tivessem prosseguimento no Supremo Tribunal Federal. Para apeá-lo do poder e dar prosseguimento às investigações precisava-se de pelo menos 342 votos para derrotar o relatório da CCJ. Teve só 227 votos. Não há no país inteiro a menor convicção de que Temer não tenha culpa. Mas os congressistas arquivaram no voto qualquer possibilidade de investigação. Com menos de cinco por cento de aprovação dos brasileiros, o presidente golpista continuará dando as cartas. E quem decidiu isto foi o mesmo pensamento reacionário e conservador que golpeou a última presidente, eleita no voto.
            Ainda que Michel Temer tivesse zero por cento de aprovação popular, ele não teria caído. A mentalidade direitista, golpista e retrógrada que o mantém é a mesma que não dá e nem nunca deu a menor satisfação para a população humilde e alienada que vota nela e de um modo geral é a maior vítima dos desmandos dessa mesma classe política. Nesse contexto, “manda quem pode e obedece quem tem juízo”. A bancada BBB (Boi, Bala e Bíblia) do Congresso Nacional sempre olhou apenas para o seu próprio umbigo sem levar em consideração as necessidades mais urgentes do povo. Dilma, o PT e todos os esquerdistas tinham que ser escorraçados do poder “a qualquer preço e custo” e assim foi feito. Parte do povão, alienado e calado, deu também a sua contribuição: vestiu-se de amarelo, riu com o pato da FIESP e foi às ruas apoiar o golpe.
            Em Rondônia, como já era de se esperar, a situação foi a mesma do Brasil. Dos oito deputados federais do Estado, cinco deles, Lindomar Garçon, Luiz Cláudio, Marinha Raupp, Lúcio Mosquini e Nilton Capixaba sequer levaram em consideração que mais de 95% dos brasileiros queriam o “Fora Temer” e assim votaram pela continuidade vergonhosa do governo espúrio. É claro que esses políticos contam com a pouca memória, a total falta de leitura de mundo e a ausência de politização da maioria de seus eleitores. Por isso é quase certa a reeleição desses cinco representantes rondonienses em 2018. E não adianta espernear nem divulgar nada nas redes sociais. O eleitor de Rondônia gosta deles e pronto. Não está nem aí para as “coisas da política”. Principalmente os cidadãos mais pobres e necessitados que sempre foram fiéis a eles.
            Alegre, entusiasmado e feliz, Temer e sua turma continuam a nos governar como se nada tivesse acontecido. E tempos bicudos parecem surgir no horizonte: mala de dinheiro, compra de voto dos parlamentares, reforma da Previdência, arrocho nos trabalhadores, perda de direitos conquistados, desemprego em massa, demissão de servidores públicos, fim da CLT, sucateamento das universidades públicas, fim dos programas sociais, corrupção e outros desmandos foram simplesmente esquecidos. O povo brasileiro leva de novo paulada na cabeça. Bem feito! Quem sabe assim aprende a votar, aprende a escolher melhor os seus representantes? Michel Temer emerge destes fatos vergonhosos e absurdos como um verdadeiro Deus, como um herói. Sem nenhum reconhecimento internacional, sem carisma, sem voto e sem popularidade, recebeu 263 votos para continuar governando “aos trancos e barrancos” o Brasil. O pobre Brasil.




*É Professor em Porto Velho.

domingo, 30 de julho de 2017

Eu tenho Alzheimer



Eu tenho Alzheimer

Professor Nazareno*

            O mal de Alzheimer é uma doença muito grave que faz as pessoas perderem a memória. Na maioria dos casos, a partir dos 60 anos de idade, embora haja registros de cidadãos acometidos pela patologia muito antes desse limite. O sofrimento é muito grande e até preocupante, principalmente para familiares e amigos. No Brasil, parece que grande parte dos cidadãos sofre deste terrível mal sem nem saber. Memória é coisa rara entre muitos de nós brasileiros. Na área da política e da participação social, por exemplo, é onde mais se verifica esse inconveniente. Uma parte muito grande dos mais de 206 milhões de cidadãos deste país sofre disso e nunca procurou ajuda para sanar seus problemas. Recentemente descobri que também sofro desta patologia, embora lute sem tréguas para me livrar do incômodo. Por isso, leio, reflito e pesquiso diariamente.
            Minha memória se foi já faz tempo. Talvez por isso, vivo gritando aos quatro cantos que quero Jair Bolsonaro eleito presidente do Brasil, pois ele vai representar a elite fardada e todos os anseios conservadores e reacionários. Quero intransigentemente a volta dos militares para nos governar, mesmo que a conjuntura política internacional não aceite mais este regime. Nem lembrei que o golpe dado por eles em 1964 foi urdido dentro dos quartéis só para proteger a elite e os ricos. Nem vou me recordar de que se os “milicos” tivessem sido mesmo tão bons não teriam se retirado, por vontade própria, da vida política nacional em 1985. Seria bom lembrar-se também da censura, da falta de democracia, das perseguições, dos exílios, da tortura, dos assassinatos, do DOI-CODI, da corrupção encoberta pela falta de liberdades e pelo enriquecimento de poucos.
            Por causa da doença, recentemente vesti a camisa amarela da CBF, saí às ruas, bati panelas, adorei o pato da FIESP, aplaudi o golpe contra a Dilma e o PT, apoiei alegremente deputados federais, me confraternizei com senadores e defendi a família tradicional brasileira. O Alzheimer não me deixa ver também que “políticos que não são políticos” tiram férias apenas com seis meses de trabalho e nada acontece com eles. Não consigo ver aumentos imorais de impostos, aumento da gasolina, da conta de energia e de tantos outros bens só para arrecadar verbas com o objetivo de comprar voto e apoio de políticos para afastar de vez a denúncia contra o presidente da República, vergonhosamente acusado de corrupção e outros desmandos. Só consigo ver que Michel Temer, com menos de cinco por cento de apoio popular, é uma dádiva para o Brasil.
            Se não for o mal de Alzheimer, eu não sei qual é o meu problema. Deve ser sonífero ou outra droga que colocam na água que bebemos. Não participo mais da política nem quero participar e, acomodado nas redes sociais, vejo tomarem todas as decisões e nada falo. Meu filho perdeu a bolsa na universidade, muitos de meus amigos perderam seus empregos, virei empregado terceirizado, abandonei o meu plano de saúde, ultimamente só ando de ônibus apesar do aumento nas passagens, nunca mais viajei de férias e sei que a vida está pior nos últimos anos, mas estranhamente continuo feliz e acho que é melhor assim, pois nossa bandeira nunca será vermelha. Embora com todos esses fatos, acredito que a vida vai melhorar. Lula, Bolsonaro, Marina Silva, Ciro Gomes, João Doria, Aécio Neves e tantos outros bons nomes que representam o novo é o que nos dá tantas esperanças. Ainda bem que leio a Veja e assisto à Globo todo dia.



*É Professor em Porto Velho.

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Bolsonaro na cabeça


Bolsonaro na cabeça

Professor Nazareno*

            O Brasil passa de novo por algumas dificuldades. Na política vivemos o Armagedon. E como esta é a mais importante das ciências, claro que as outras áreas podem também ser afetadas pelo caos. Podem, mas não serão. O fim do suplício dos brasileiros já tem nome e data. Jair Messias Bolsonaro pode ser eleito o novo presidente do país a partir de 2018. Bolsonaro é o tipo de político “que também não é político” e por isso encanta grande parte do eleitorado brasileiro. Militar da reserva do Exército e deputado federal já pela sexta vez, o mais novo líder desponta nas pesquisas de opinião como presença certa e talvez até vitoriosa no segundo turno das próximas eleições. Com um discurso messiânico e afiado, “Bolsomito” encanta multidões por onde passa: jovens principalmente e também os velhos saudosistas dos “áureos tempos” entre 1964 e 1985.
            No poder, certamente ele reconduzirá o Brasil para a modernidade e as nações mais ricas e prósperas do mundo ficarão com inveja do nosso país. Internamente haverá uma verdadeira revolução nos costumes e nas práticas cotidianas. Muitas coisas do “melhor período da nossa História” voltarão a ser realidade. Bolsonaro recriará o DOI-CODI para a euforia geral. Esquerdistas inconsequentes não terão vez nem voz com ele. Opiniões todos terão, mas só com responsabilidade e altivez. Em todas as unidades da federação haverá escritórios e fiscais que acompanharão os passos de todos. É o Estado preocupado com o bem estar do cidadão comum, coisa tão boa, mas que há mais de três décadas não acontece. Televisão, sites e a mídia de um modo geral serão orientados para participarem do crescimento do país e para respeitar os novos métodos implantados.
            Na área da segurança pública não haverá mais violência, pois será criado o Ministério da Justiça com as Próprias Mãos. E como o brasileiro comum entende muito bem de leis e de Direitos Humanos essa nova pasta será um sucesso. Na Educação, todas as escolas serão militarizadas. O pioneiro e bravo exemplo de Rondônia será levado para todo o país. Acho que nosso Estado terá representante na Esplanada dos Ministérios. Usar fardamento e cantar o hino nacional diariamente elevará o nível das nossas escolas e dos nossos alunos. Além do mais, como os militares já resolveram o problema da violência, nada mais louvável do que responderem também pela Educação. O Conselho Nacional dos Direitos Humanos será, claro, extinto. O comunismo será crime e o país voltará a ter a Lei de Segurança Nacional e os bons Atos Institucionais.
Na Saúde, Rondônia proporá a ele a “joãopaulinização” de todos os hospitais e clínicas do país, já que o modelo por aqui sempre deu certo para todos os cidadãos, principalmente aqueles mais pobres e carentes. O nosso novo presidente terá um blog e a cada seis meses viajará para a Europa de férias, já que ninguém é de ferro. E tudo com a aprovação dos políticos mais chegados. Para alegria de muitos, a Constituição será substituída pela Bíblia e os homossexuais, LGBT e afins serão proibidos de existir. O Estado não mais será laico e poetas, professores, blogueiros e intelectuais poderão sofrer “pequenas restrições” em suas atividades. Para o bem de todos, greves não mais existirão e todas as passeatas e manifestações serão devidamente controladas pelo Poder Público. O Judiciário ainda existirá, mas será igual àquele das décadas de 60 e 70. Lava Jato só para lavar carros mesmo. Ele “prenderá e arrebentará” quem não votar nele?




*É Professor em Porto Velho.

terça-feira, 25 de julho de 2017

Leo, guerreiro amazônico


Leo, guerreiro amazônico


Professor Nazareno*


Nascido há 62 anos na Ilha de Assunção no baixo Madeira em Porto Velho, filho de um antigo soldado da borracha e de uma descendente de cearenses, Manoel Pereira Neto quase não era conhecido nas redes sociais nem nas “altas rodas” da cidade que o acolheu a partir do ano 1980. Mas tinha muitos amigos e admiradores. Leo, ou Cabo Leo, era um autêntico rondoniense que se orgulhava da sua humilde origem beiradeira e de seus jeitos e astúcias em cima de um trator da prefeitura da capital onde trabalhou por mais de 30 anos abrindo e encascalhando ruas e avenidas. Garoto pobre do interior, Cabo Leo já fez de tudo na vida para sobreviver e criar sua família com muita dignidade e caráter. Sempre alegre e tranquilo, foi gari, garçom no antigo Jaú, prático de barco, pescador, caçador e um mateiro dos bons. Leo morreu, mas poucos souberam disso.
Como ninguém, o Cabo Leo sabia andar no meio do mato. Nunca se perdeu e desde pequeno caçava como passatempo. “Eu entro em qualquer mata e saio na hora que eu quiser” costumava dizer. Aprendeu a viver a vida simplesmente vivendo a vida. Ajudou no lazer de muitas autoridades sem nada cobrar. Acampar no mato? Cabo Leo é o guia. Pescar na extinta Cachoeira do Teotônio sempre foi um de seus esportes favoritos. Tarrafear era com ele mesmo. Pescava por prazer e depois doava todo o peixe para os conhecidos que encontrava. “Para casa eu só levo o do almoço”, dizia alegremente. “Peixe no rio Madeira é como uma mina, não acaba nunca”, acreditava piamente. Nunca teve orgulho de ser rondoniense, pois dizia que ninguém escolhe lugar para nascer. “O bom é a gente viver para ajudar os familiares e os amigos”, pregava.
Cabo Leo viu o mar, viajou de avião e não se afobou. Mesmo sendo a primeira vez, se comportou como um veterano. Como beiradeiro que anda em barco pequeno nos perigosos e traiçoeiros banzeiros do Madeira em dias de temporal, não via empecilho nenhum em estar nos céus. Viu o frio de zero grau sem maiores problemas. “Com roupas grossas, frio não tem nenhuma novidade”, acreditava. Só não entendia como há pessoas “tão bestas” que viajam só para curtir essa temperatura de friza (freezer). Garantia que já tinha trabalhado em geleira de um barco pesqueiro entre Porto Velho e Manaus e por isso já estava acostumado ao tempo frio. Perguntado se gostava de sua terra natal ele dizia que Rondônia foi feita só para os ricos. “Se sobrar alguma coisa, eles dão de esmolas para nós os pobres, que não têm vez em lugar nenhum do mundo”.
Sempre operando máquinas, ajudou na abertura da Avenida rio Madeira, hoje Chiquilito Erse, abriu a Jorge Teixeira para ligá-la ao aeroporto, hoje Espaço Alternativo e quando o José Guedes era prefeito de Porto Velho, ajudou na abertura da Zona Leste da cidade. Leo tinha um grande coração e por causa dele veio a óbito. Viu as condições de “campo de concentração” do Hospital João Paulo Segundo onde ficou internado por muitos dias. “Andou” também pelo Hospital de Base e em algumas clínicas particulares. Por causa do diabetes, sabia da morte certa e por isso resolveu, contra tudo e contra todos, “despedir-se” da sua amada Ilha. Com a família, participou pela última vez do festejo de São Pedro onde se divertiu como pôde. Fez covas para enterrar muitos no Tonhão. E acabou enterrado lá. Normal não ter nenhuma autoridade em seu velório. Sua lição ficará e jamais será nome de rua, embora tenha aberto tantas.




*É Professor em Porto Velho.

sábado, 22 de julho de 2017

Sonho: EFMM privatizada


Sonho: EFMM privatizada


Professor Nazareno*

            
       É inegável a importância histórica da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré. A Ferrovia do Diabo, concluída no início do século passado, faz parte do acervo histórico da humanidade não só por que trabalhadores de várias nacionalidades participaram da obra, mas principalmente pelo fato de ter sido destaque entre as relações do Brasil com a Bolívia e de ter fechado com “chave de ouro” os áureos tempos do Primeiro Ciclo da borracha. Por sua causa, Porto Velho e Guajará-Mirim existem. O Estado do Acre, a própria Bolívia, o Chile, os Estados Unidos, Barbados, Reino Unido e várias outras nações do mundo estão direta ou indiretamente ligadas ao seu contexto. Porém com pouco mais de cem anos de existência, o que resta da velha ferrovia está abandonado e apodrecendo no meio do mato. Transformada em monturo e ferrugem, agoniza a esmo.
            Os problemas da EFMM foram muitos, mas sua lenta agonia provavelmente começou quando passou a ser administrada por brasileiros e depois pelos rondonienses. Seus trilhos viraram “estacas” de seguranças de residências, suas locomotivas foram desativadas e descartadas como lixo velho, seu patrimônio dilapidado, muitas peças de seu acervo foram roubadas e na enchente histórica em 2014, as águas do rio Madeira lentamente lhe impuseram o tiro de misericórdia sob o olhar passivo e negligente das autoridades que tomavam conta da velharia. Por tudo isso, a Estrada de Ferro mais importante da Amazônia deveria ser privatizada. Um sonho se outras nações ou povos mais zelosos cuidassem dela e de toda a área circunvizinha. O porto do Cai N’água, que está parado há meses, finalmente voltaria a funcionar com os novos administradores.
            Duvido que se alemães, franceses ou japoneses, por exemplo, tivessem a suprema coragem de tomar conta daquelas sucatas podres, a ponte ainda estivesse escura como breu e sem nenhuma serventia. Zelosos como são, os estrangeiros já tinham construído uma pista de caminhada do centro até a hidrelétrica de Santo Antônio para substituir o famigerado Espaço Alternativo. E sem roubar um único centavo da obra. Caminhar com uma vista panorâmica do Madeira e da região seria privilégio para poucos. Os competentes e novos administradores certamente plantariam flores e criariam muitos jardins e recantos de lazer ao longo da beira do rio desde a hidrelétrica até a estrada do Belmont. Tenho certeza absoluta de que sob uma administração de responsabilidade não haveria sequer um só saco plástico, papel ou garrafa pet jogados.
            Festa Gospel ou de qualquer outra natureza ainda haveria no lugar, mas depois não se encontrariam imundícies jogadas no meio da grama. Antes de toda concentração, sacos de lixo seriam distribuídos e fiscais orientariam os participantes a não sujar o espaço público. Além de não saberem administrar nada, brasileiros e rondonienses de um modo geral adoram sujar e emporcalhar o ambiente que os cerca. Segurança haveria de sobra e ninguém ousaria mais defecar nas imediações da praça histórica muito menos usar drogas a céu aberto sem ser importunado pela inexistente segurança. O vergonhoso cemitério de locomotivas seria todo restaurado e colocado em exposição. Se foram os forâneos que construíram a majestosa obra, só mesmo eles com sua organização e honestidade para fazê-la trazer de volta a alegria dos seus poucos visitantes. O que estão esperando? Devolvam logo a Mad Maria e todo acervo da EFMM para os estrangeiros.




*É Professor em Porto Velho.

terça-feira, 18 de julho de 2017

Frio alheio e extemporâneo


Frio alheio e extemporâneo


Professor Nazareno*


Frio alheio, pois não é daqui. É do Sul do Brasil e de muitos outros lugares civilizados do exterior. Extemporâneo, já que é totalmente fora de época.  E mais uma vez a natureza descontrolada decide nos pregar uma peça mandando frio para este fim de mundo. Embora seja inverno no hemisfério sul da terra, em Rondônia não deveria fazer frio. Sim, 15 ou 16 graus é muito frio para quem vive no mormaço úmido destas latitudes quentes. A forte massa de ar polar que alcançou o sul da Amazônia em meados deste julho, dando origem ao fenômeno conhecido regionalmente como friagem, fez despencar as altas temperaturas da região e trouxe consigo, de novo, algo inédito: a sensação de que em Rondônia e em Porto Velho, sua imunda, quente e inabitável capital vive-se na Europa, nos EUA ou em outro lugar desenvolvido, aprazível e próspero.
Alguns rondonienses hipócritas afirmam aos quatro cantos que adoram este tempo frio e ventilado. “O clima daqui devia ser esse” dizem sem a menor noção do ridículo. Mentira pura. Tudo falsidade. Lorota para fazer média com os idiotas. Já outros falam que amam Porto Velho, mas estranhamente moram em cidades fora daqui. Dizer que adoram o frio, mas não conviver com ele é o mesmo que declarar amor à cidade vivendo em outros lugares bem mais civilizados e atrativos. A realidade do frio em baixas latitudes transforma o que já é ruim em algo bem pior. Nesta época do ano, Porto Velho é uma das filiais do inferno. Calor insuportável, umidade, poeira e fumaça das criminosas queimadas dão o toque diabólico ao ambiente infecto e inóspito em que vivemos.  Até o prefeito da cidade, o “estimado líder”, foi para a Disney e a Europa.
Com frio ou sem frio, Porto Velho é um fim de mundo feito sob medida para quem não tem dinheiro nem condições de ir ao Primeiro Mundo como o nobre alcaide e outros poucos cidadãos privilegiados. Eu já falei uma vez que aqui no falso frio da zona quente da terra somos obrigados a ver o espetáculo dantesco de pessoas usando roupas velhas, rotas, fedendo a mofo, baratas e a naftalina. Porém, muitos porto-velhenses gostam mesmo do frio, pois assim podem sujar mais a sua cidade. Não se sabe o porquê, mas nestes dois ou três dias “friorentos” aumenta a quantidade de papel, garrafas pet, plásticos, absorventes usados e até preservativos deixados no meio das ruas e avenidas. O lixo e a falta de bons modos por aqui campeiam no Arraial Flor de Maracujá, nos shows gospel, na Banda do carnaval e em qualquer solenidade. Com ou sem friagem.
Sem condições sequer para tomar um bom vinho ou até mesmo degustar uma culinária mais selecionada, alguns dos pobres coitados moradores daqui, tremendo de frio, coçando-se todo, tossindo e ainda meio desajeitados com suas roupas doadas se viram como podem no meio da poeira e da sujeira para comemorar alegremente a “imparcial” condenação de Lula na Lava Jato, a absolvição do Aécio Neves e o possível perdão que será dado ao governo Temer e a sua turma. “Esse frio pode ser muito bom também para o cemitério de locomotivas da extinta e abandonada EFMM”, comentam alguns. Realmente: o frio fará a “mãe de Rondônia” durar mais tempo no meio do mato e da ferrugem. Na Câmara de Vereadores de Porto Velho e na Assembleia Legislativa os ânimos se exaltam: “Podemos trazer este frio para ficar por aqui para sempre” já prometem alguns políticos. Chuveiro quente, edredons e banhos voltarão às periferias?



*É Professor em Porto Velho (http://blogdotionaza.blogspot.com
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